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Poderoso critério de desempate


Um telefonema fez toda a diferença para o desfecho da morte de Rafael Mascarenhas, 18 anos, músico, filho da atriz Cissa Guimarães, na madrugada de 20 de julho deste ano (2010), que foi atropelado enquanto andava de skate com amigos no Túnel Acústico, na Gávea, interditado para manutenção, no momento do acidente.

Uma das versões mais sustentadas pela mídia em geral é a de que dois carros em alta velocidade faziam um “pega” dentro do túnel. Um dos veículos, um Siena preto que trafegava com os faróis apagados, teria atropelado Rafael.

Segundo investigações, o assassino do skatista é Rafael Bussamra, que confessou o atropelamento, alegando ter prestado socorro ao músico e que, por isso, fora liberado pela polícia pouco depois da tragédia.

Entretanto, o que se divulga hoje nos meios de comunicação é que esse homicídio teve dimensões mais profundas do que se pode imaginar. Hipótese levantada pela polícia aponta que a morte do skatista está permeada de corrupção, envolvendo policiais e o pai de Rafael Bussamra, Roberto Bussamra.

De acordo com suposições da equipe de investigação do caso, o atropelador e seu pai teriam levado o carro do acidente a uma oficina mecânica, na manhã daquele dia, para ser consertado, na tentativa de ocultar vestígios do crime.

Há fortes indícios de que Roberto Bussamra iniciou negociação com policiais que estavam no local do acidente, para que seu filho, Rafael, não fosse incriminado. Há suspeitas de que PMs pediram R$ 10 mil em propina, mas Roberto só pagou R$ 1 mil, combinando pagar o restante no dia seguinte, na Praça Mauá, no Centro do Rio de Janeiro.

Para a investigação, Roberto Bussamra teria dito que interrompeu as transações, porque, enquanto fazia o acerto, teria recebido um telefonema da sua mulher, contando que a vítima do atropelamento era o filho da atriz.

Na terça-feira (27/7/10), de madrugada, a Polícia Civil do Rio fez a reconstituição do atropelamento, durante mais de cinco horas, no local do acidente, com interdição do túnel. A reprodução simulada ocorreu no mesmo horário em que Rafael Mascarenhas foi atropelado e morto. Durante o fechamento do lugar, motoristas tiveram de seguir pela Avenida Niemeyer, no Leblon.

O Código de Trânsito Brasileiro estabelece no artigo 95, entre outras determinações, que “nenhuma obra ou evento que possa perturbar ou interromper a livre circulação de veículos e pedestres, ou colocar em risco sua segurança, será iniciada sem permissão prévia do órgão ou entidade de trânsito com circunscrição sobre a via.

A obrigação de sinalizar é do responsável pela execução ou manutenção da obra ou do evento. Salvo em casos de emergência, a autoridade de trânsito com circunscrição sobre a via avisará a comunidade, por intermédio dos meios de comunicação social, com quarenta e oito horas de antecedência, de qualquer interdição da via, indicando-se os caminhos alternativos a serem utilizados”.

Quanto à atriz, Cissa Guimarães, ainda não se sabe quanto da sua alegria foi roubada (“gentem!!!”). É impossível descrever o tamanho da dor.

Como recuperar o show no vídeo, a firmeza da mão ao segurar o microfone, o vigor no sorriso, o brilho nos olhos, a levantada de astral? Quanto ao jovem músico skatista, de curta passagem por este mundo, restam cinzas – o que fazer com elas? –, resta saudade.

Resta também mais uma oportunidade – principalmente pela repercussão do caso – de lembrar que “estatísticas brasileiras indicam que cerca de 30% dos acidentes de trânsito são atropelamentos, e causam 51% dos óbitos”

E vale observar que agora muita gente sabe que se faz reconstituição também em caso de atropelamento e morte. Para os envolvidos no crime (o atropelador, os suspeitos de corrupção etc.), cabem diversas lições.

Descartando completamente a desnecessária hipótese de a vítima ser pobre, pelo fato de considerar que as chances de toda essa história ser conhecida seriam praticamente nulas, imagina-se que o desfecho desse caso poderia ser outro, não fosse um detalhe que mudou a vida dos denunciados: o poderoso critério de desempate chamado fama.



Por Miqueias Nunes da Silva | 28/Jul/2010 | Comments [0] | Imprimir | Envie para um amigo

fechar Miqueias Nunes da Silva » Mestrando em Engenharia de Transportes (UFRJ), Pós-Graduado em Políticas Públicas de Justiça Criminal e Seg. Pública (UFF), Pós-Graduado em Docência do Ensino Superior (UCAM), Licenciado Pleno em Docência dos Ensinos Fund. e Médio (UCAM) e Bacharel em Administração (UFF). Instrutor dos Cursos de Especialização do CONTRAN (Passageiros, Escolar, Emergência, Produtos Perigosos e Cargas Indivisíveis) e Servidor da SEEDUC/RJ. Idealizador do "BLOG VIVO NO TRÂNSITO” (http://vivonotransito.zip.net).

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